14 de mai de 2013

Sonho dourado



A mágica que transforma papel em ouro só é possível de ser realizada na mais tenra infância. A criança é capaz de enxergar um tesouro onde o adulto só consegue ver papel-cartão.

Foi nestas bases que eu encontrei meu amigo japonês, vizinho de casa, sentado no chão da cozinha, finalizando a montagem de um bau cheio de jóias. Já não me lembro mais de seu nome. Os muitos anos que se passaram deste então encarregaram de apagá-lo de minha memória. Por isso o chamarei aqui de japonês.
Japonês tinha uma história de vida singular para a época: os pais eram separados. Ele vivia com a mãe e sua irmã mais velha, que tinha fama de putinha entre os meninos do bairro. Os meninos mais velhos contavam coisas de arrepiar sobre os encontros amorosos mantidos (segundo os mesmos) à noite com a japa, no corredor lateral de sua casa.

Pois japonês estava terminando de encaixar as peças que compunham a arca do pirata quando eu cheguei, sem avisar.

No interior, naquela época, eram muito corriqueiras estas idas e vindas à casa de amigos e vizinhos, sem que para isto se fizesse necessário aviso prévio.

Quando japonês me viu, tratou de apresentar-me todo orgulhoso a arca que acabara de montar, fruto das inúmeras caixas de sabão em pó compradas por sua mãe.

Existia uma marca de sabão que trazia impresso no verso de sua embalagem partes de um tesouro que podia ser montado juntando-se várias caixas. Para as mães isto deveria ser um martírio, mas para as crianças era um verdadeiro tesouro.

Eu posso ainda sentir a fascinação e a inveja que se misturaram dentro de mim naquele instante.

"Meu Deus!", pensei... "Japonês tem um tesouro!". Ao abrir a arca, pude ver colares de pérolas, barras de ouro, espadas douradas, moedas de ouro, brincos, anéis e - claro - um mapa onde este tesouro estava enterrado.

Hoje sei que ele poderia vir a ser encontrado nas prateleiras do supermercado, mas- à época - ele só existia na casa do japonês.

Após brincar com ele durante uma horinha, voltei para casa correndo, louco para contar a novidade para os meus pais.

Pedi a minha mãe que também comprasse o tal sabão em pó para que eu pudesse ter a minha própria arca do tesouro, mas a minha mãe foi logo avisando:

- "De jeito nenhum. Detesto esta marca de sabão em pó."

Aquela resposta foi um balde de água fria na minha cabeça. Minha mãe acabara de roubar o meu sonho dourado. Tal qual um pirata sanguinolento.

Transformar papelão em ouro. Isto eu não consigo mais. Agora transformar sonhos em realidade, isto é a minha especialidade. Pelo menos é o que eu busco e me proponho fazer pelos meus clientes.

E como o assunto é ouro, mostrarei a seguir alguns trabalhos que realizei durante alguns anos para uma marca de bijuterias finas chamada AYRA.



É uma pena que não tenha mais notícias desta grife, pois os seus produtos feitos pela designer Liza Miyaki são de emocionar a alma.

A nossa parceria começou com a confecção uma etiqueta. Ela apresenta o fundo off-white, com o logo deslocado para o canto direito, e uma pedra Swarovski transparente aplicada no seu canto esquerdo: um pequeno luxo que traduz a sofisticação das peças criadas.

O que fazer para fotografar estes produtos? Como mostrá-los de uma forma original? Foi respondendo a estas perguntas que resolvi construir uma mulher, usando como ferramenta não lápis e papel, mas pequenas argolas e correntes douradas.














Na sequência, desenvolvi e produzi um saquinho maravilhoso que foi utilizado para acondicionar as peças. Ele é feito em fundo damask offf-white, com o logo em preto sobre um fundo dourado, onde se pode ler AYRA. Este fio dourado é de poliamida e seu tom traduz sofisticação.







Desenvolvi também um saquinho muito especial, em três variantes de cor (framboesa, preto e prata), sendo os de fundo framboesa e preto bordados em ouro metálico, e o de fundo prata bordado em prata metálico. O fundo dos mesmos tem um desenho em forma de folhas, bordados no mesmo tom dos logos.

















Que tal, gostou da mulher de metal que construí? Vou batizá-la de Ayra.


Além destes trabalhos, desenvolvi um tecido jacquard floral que virou lindas clutchs naquela estação. Mas este trabalho, mostrarei em um próximo post.


Frase do dia: Antes de pular, avalie a profundidade do lago para não quebrar a cara.




(*) grafite encontrado no bairro Glória, Rio de Janeiro
(**) texto foto 2: peço desculpas pela intervenção feita por algum engraçadinho de plantão

Este post foi publicado na Revista da Cidade do dia 26/05/2013. Agradeço ao jornalista Frank Menezes pelo espaço tão gentilmente dispensado a este blog.



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